segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A maneira como pensamos em caridade está totalmente errada.

Ativista e Captador de Recursos, Dan Pallotta chama a atenção para os princípios contraditórios que baseiam nossa relação com as instituições de caridade. Muitas oraganizações filantrópicas, ele diz, são beneficiadas por gastarem tão pouco — não pelo que fazem. Em vez de igualar frugalidade com a moralidade, ele nos pede para que comecemos a compensar as insituições pelos seus objetivos grandes e grandes conquistas (mesmo que isso venha com grandes gastos). Nessa palestra corajosa, ele diz: Vamos mudar a maneira que pensamos em mudar o mundo.

Ou ainda: como a lógica de mercado pode ajudar a caridade.



Transcrição integral do vídeo:
Eu quero falar sobre inovação social e empreendedorismo social.

Eu por acaso tenho tri gêmeos. Eles são pequenos, têm 5 anos. Às vezes eu digo às pessoas que tenho tri gêmeos.

Elas dizem”, “Sério? Quantos?” Esta é uma foto deles. Essa é a Sage, e a Annalisa e Rider.

Agora, eu por acaso também sou gay. Ser gay e criar tri gêmeos são até agora a coisa mais inovadora socialmente, e empreendedora socialmente que eu já fiz. (Risos) (Aplausos)

A real inovação social da qual quero falar envolve caridade. Quero falar sobre como as coisas que nos ensinaram a pensar sobre doações e caridade e sobre as organizações sem fins lucrativos estão,na verdade, minando as causas que amamos e nosso profundo anseio de mudar o mundo. Mas antes que eu faça isso, eu quero perguntar se a gente acredita mesmo que o setor das organizações sem fins lucrativos tem algum papel na mudança do mundo. Muitas pessoas dizem que os negócios vão levantar as economias em desenvolvimento. e os negócios sociais vão tomar conta do resto. E eu acredito que os negócios vão mover adiante a grande massa de humanidade .

Mas isso sempre deixa pra trás aqueles 10% ou mais que tem menos vantagens ou menos sorte. E o negócio social precisa de mercados,e há algumas questões para as quais você não pode desenvolver o tipo de medidas de dinheiro que você precisa para um mercado. Eu faço parte da direção de um centro para portadores de deficiência mental, e essas pessoas querem risos e compaixão e querem amar. Como você monetiza isso? É aí que o setor de instituições sem fins lucrativos e a filantropia entram. Filantropia é o mercado para a amor.

É o mercado para todas aquelas pessoas para quem não há mercado. Então, se realmente quisermos, como Buckminster Fuller disse, um mundo que funciona para todos, sem ninguém deixado de fora, aí o setor sem fins lucrativos tem que ser uma parte séria da conversa. Mas não parece estar funcionando.

Por que nossas instituições de caridade de câncer de mama não estão perto de descobrir a cura, ou nossas instituições para os moradores de rua não estão perto de acabar com essa situação em qualquer grande cidade? Por que a pobreza permanceu em 12% da população americana por 40 anos? E a resposta é, esses problemas sociais são enormes em escala, nossas organizações são pequenas contra eles, e nós temos um sistema de crença que as mantém pequenas. Nós temos dois livros de regras.

Nós temos um para o setor sem fins lucrativos e um para o resto da economia mundial. É um apartheid, e que discrimina o setor sem fins lucrativos em cindo áreas diferentes, a primeira sendo remuneração. Então, neste setor, quanto mais valor você produzir, mais dinheiro você pode fazer. Mas nós não gostamos que essas entidades usem dinheiro para incentivar as pessoas a produzirem mais no serviço social. Nós reagimos de forma radical à ideia de que alguém esteja fazendo muito dinheiro ajudado as outras pessoas. Interessante que não reagimos dessa forma à ideia de que pessoas ganhariam muito dinheiro sem ajudar ninguém.

Sabem, você quer fazer 50 milhões de dólares vendendo jogos de video games violentos para crianças, vá em frente. Nós te colocaremos na capa da Revista Wired. Mas se você quer ganhar meio milhão de dólares tentando curar crianças com malária, e você é considerado um parasita. E nós pensamos nisso como nosso sistema de ética. mas o que nós não percebemos é que esse sistema tem um poderoso efeito colateral, que é, dá uma dura opção, mutualmente exclusiva entre fazer bem a você próprio e sua família ou fazer bem ao mundo para as mentes mais brilhantes saindo de nossas universidades, e manda dezenas de milhares de pessoas que podiam fazer uma enorme diferença no setor sem fins lucrativos marcharem todos os dias direto para o setor COM fins lucrativos porque elas não estão dispostas a fazer esse tipo de sacrifício econômico para os resto da vida Businessweek fez uma pesquisa, olhou para os pacotes de remuneração para os formados com MBA, 10 anos de formação em business, e o salário médio para um MBA de Stanford, com bônus, aos 38 anos, era 400.000 dólares. Enquanto isso, para o mesmo ano, o salário médio do CEO de uma instituição de caridade médica de $5 milhões de dólares nos EUA era de 232.000 dólares, e o de uma instituição contra a fome, 84.000 dólares.

Agora, não tem jeito de você fazer um monte de gente com um talento de 400.000 dólares, fazer um sacrifício de 316.000 dólares todo ano, para se tornarem o CEO de uma instituição de caridade contra a fome. Algumas pessoas dizem, “Bem, mas é porque esses tipinhos com MBA são muito gananciosos.” Não necessariamente. Eles podem ser espertos. É mais barato para esta pessoa doar cem mil dólares todo ano para essa instituição, economizando 50 mil dólares de imposto, assim ela ainda sairia ganhando 270 mil dólares a mais por ano nesse jogo, e ser chamada de filantropo porque doaram 100 mil dólares para caridade, provavelmente estar no conselho de administração dessa instituição, até mesmo, provavelmente até supervisionar o pobre SOB que decidiu se tornar o CEO da instituição, e ter uma vida inteira com esse tipo de poder e influência e popularidade ainda pela frente. A segunda área de discriminação é propaganda e marketing. Dizemos para o mercado privado com fins lucrativos, “gaste, gaste, gaste em propaganda até o último dólar não produzir mais um centavo de valor.” Mas nós não gostamos de ver nossas doações para fins beneficentes sendo gastas em propaganda Nossa atitude é, “Bem, olhe, se você conseguir uma doação para propagandas, sabe, às quatro da manhã, tudo bem para mim. Mas eu não quero minhas doações sendo gastas em publicidade. Eu quero que vá para os necessitados.” Como se o dinheiro investido na publicidade não pudesse trazer de volta somas muito grandes de dinheiro para servir aos necessitados.

Nos anos 90, minha companhia criou as longas viagens de bicicleta AIDSRide e as caminhadas do câncer de mama, de 60 milhas em três dias, e ao longo de nove anos, nós tivemos 182.000 heróis comuns participando, e eles arrecadaram um total de 581 milhões de dólares. Eles arrecadaram dinheiro mais rápido para essas causas que qualquer evento na história, tudo baseado na ideia de que pessoas estão cansadas de que lhes peçam que façam o mínimo que podem fazer. As pessoas estão ansiosas por medir a distancia toda de seu potencial em nome das causas com as quais se importam profundamente. Mas elas precisam ser convidadas.

Nós conseguimos este tanto de pessoas participantes comprando comercias de uma página inteira no New York Times, no Boston Globe, em comerciais de radio e TV. Sabem quantas pessoas teríamos conseguido se tivéssemos colocado cartazes nas lavanderias? Doações permaneceram paradas, nos EUA, nos 2% do rendimento interno bruto, desde que isso começou a ser medido, nos anos 70. Esse é um fato importante, porque nos diz que em 40 anos, o setor sem fins lucrativos não foi capaz de lutar contra nenhuma participação afastado do setor privado que visa lucro. E se você pensar nisso, como poderia um setor tirar a participação no mercado de outro setor se não é exatamente permitido no mercado? E se nós contarmos às marcas de consumo, ”Você pode anunciar todos os benefícios do seu produto,” mas nós dissermos às instituições, “Você não pode anunciar todo o bem que você faz,” para onde acha que o dinheiro do consumidor vai? A terceira área de discriminação é a tomada de risco em buscar novas ideias que geram rendimento. A Disney pode fazer um filme de 200 milhões de dólares que fracassa, e ninguém vai chamar o procurador geral. Mas se você faz uma captação de recursos comunitária de 1 milhão para os pobres, e não produz um lucro de 75% para a causa nos primeiros 12 meses, e seu caráter já é questionado.

Então as instituições são bem relutantes em tentar qualquer angariação de fundo inovadora, ousada, grande por medo de que se a coisa falhar, sua reputação será arrastada para a lama. Bem, nós sabemos que quando você proíbe a falha, você mata a inovação. Se você mata a inovação na captação de recurso, você não pode arrecadar mais recurso. Se você não pode arrecadar recurso, você não pode crescer. E se você não pode crescer, você não pode resolver grandes problemas sociais. A quarta área é tempo. A Amazon ficou seis anos sem devolver qualquer lucro para os investidores, e as pessoas tiveram paciência. Elas sabiam que havia um objetivo a longo prazo de construir domínio de mercado. Mas se uma organização beneficente tivesse um sonho de construir uma escala magnífica que fosse requerer 6 anos, nenhum dinheiro iria para os necessitados, seria todo investido em construir essa escala, esperaríamos uma crucificação. E a última área é o próprio lucro. As empresas privadas podem dar lucro as pessoas para atrair seu capital para suas novas ideias, mas você não pode ter lucros numa organização sem fins lucrativos, de modo que o setor de fins lucrativos tem um bloqueio nos mercados multi-trilhionários e o setor não lucrativo está faminto por crescimento e risco e capital ideal. Bem, você coloca essas cinco coisas juntas– você não pode usar dinheiro para atrair talento do setor com fins lucrativos, você não pode fazer propagandas como o setor privado faz para ter novos clientes, você não pode assumir os riscos na busca desses clientes que o setor privado assume, você não tem o mesmo tempo para achá-los como o setor privado,e você não tem um mercado de ações para financiar tudo isso, mesmo que você conseguisse, e você acaba de colocar o setor sem fins lucrativos em desvantagem para o setor privado em todos os níveis.

Se temos alguma dúvida sobre os efeitos desse livro de regras, essa estatística é preocupante: De 1970 até 2009, o número de organizações filantrópicas que realmente cresceram, que ultrapassaram a barreira de recurso de $50 milhões ao ano, é 144. Ao mesmo tempo, o número de empresas privadas que ultrapassaram isso é 46,136. Então, estamos lidando com problemas sociais que são enormes em escala, e nossas organizações não conseguem gerar uma escala. Tudo dessa escala vai para a Coca-Cola e para o Burger King. Então, por que pensamos dessa forma? Bem, como a maioria dos dogmas fanáticos na América, essas ideias vêm de velhas crenças Puritanas. Os Puritanos vieram por razões religiosas, pelo menos é o que dizem, mas eles também vieram porque queriam fazer muito dinheiro. Eles eram pessoas piedosas, mas também eram capitalistas bem agressivos, e foram acusados de formas extremas de tendências para ter lucro comparados a outros colonizadores. Mas ao mesmo tempo, os Puritanos eram Calvinistas, então eles foram ensinados a literalmente odiarem a si mesmos.

Foram ensinados que interesse próprio era como um mar furioso, que era um caminho certo para a condenação eterna. Bem, isso criou um problema grande para essas pessoas, certo? Aqui estão eles, que vieram para o outro lado do Atlântico para ganhar todo esse dinheiro. Ganhar esse dinheiro vai te fazer ir direto para o Inferno. O que eles poderiam fazer quanto a isso? Bem, caridade foi a resposta. Tornou-se um santuário econômico onde eles poderiam fazer penitência pelas suas tendências lucrativas a cinco centavos o dólar. Então, claro, como ganhar dinheiro na caridade se caridade era a penitência por ganhar dinheiro? Incentivo financeiro foi exilado do reino da ajuda ao próximo para que pudesse prosperar na área de obter dinheiro por si só, e em 400 anos, nada interveio para dizer, “Isso é contraproducente e isso é injusto.” Agora essa ideologia fica policiada por uma questão muito perigosa, que é, “Que porcentagem de minha doação vai para a causa versus despesas gerais?” Há muitos problemas com essa questão. Eu vou focar em apenas dois. Primeiro, isso nos faz pensar que as despesas gerais são uma coisa negativa, que não é, de alguma forma, parte da causa. Mas absolutamente é, especialmente se estiver sendo usado para crescimento.Agora, essa ideia de pensar nas despesas gerais como inimigas da causa cria o segundo, e muito maior, problema, que é o fato de forçar as organizações a continuarem sem as coisas gerais que realmente precisam para crescer, pelo interesse em manter as despesas baixas. Todos nós fomos ensinados que a filantropia deveria gastar o menos possível em despesas gerais, como captação de dinheiro sob a teoria que, bem, quanto menos dinheiro gastar para a captação de recursos, mais dinheiro estará disponível para a causa. Bem, isso é verdade se for um mundo deprimente no qual essa torta não pode ser feita maior. Mas, se for num mundo lógico no qual investir numa captação de recursos na verdade levanta mais fundos e faz a torta maior, aí nós estamos fazendo as coisas o contrário, e nós devemos investir mais dinheiro, não menos, nessa captação, porque isso é a única coisa que tem o potencial de multiplicar a quantidade de dinheiro disponível para a causa com a qual nos preocupamos profundamente. Vou dar exemplos. Nós lançamos a AIDSRides com um investimento inicial de 50.000 dólares no capital de risco. Em 9 anos, nós tínhamos multiplicado isso em 1.982 vezes em 108 milhões de dólares, depois de todas as despesas para serviços da AIDSRides Lançamos os três dias para o câncer de mama com um investimento inicial de 350.000 dólares em capital de risco. Em apenas 5 anos, nós tínhamos multiplicado isso 554 vezes em 194 milhões de dólares depois das despesas para as pesquisas em câncer de mama.

Agora, se você fosse um filantropo realmente interessado em câncer de mama, o que faria mais sentido: ir e achar o pesquisador mais inovador do mundo e dar a ele 350.000 dólares para pesquisa, ou dar ao departamento de captação de recursos estes 350.000 dólares para multiplicar isso em 194 milhões de dólares para a pesquisa em câncer de mama? 2002 foi nosso ano mais bem sucedido. Rendemos para o câncer de mama, só ele naquele ano, 71 milhões de dólares líquidos. E aí saimos do mercado, repentinamente e com traumas. Por quê? Bem, para encurtar, a história é que nosso patrocinador se separou da gente. Eles quiseram se distanciar de nós porque estávamos sendo crucificados pela mídia por investir 40% da renda bruta em contratações e serviço ao cliente e a magia da experiência e não há uma palavra mais aceitável para descrever esse tipo de investimento no crescimento e no futuro, senão esse rótulo demoníaco de despesas gerais. Então um dia, todos os nossos maravilhosos 350 empregados perderam seus empregos porque foram classificados como despesas gerais. Nosso patrocinador tentaram os eventos por conta própria. As despesas subiram. O lucro líquido para a pesquisa do câncer de mama caiu em 84%, ou 60 milhões de dólares ao ano. Isso é o que acontece quando confundimos moralidade com frugalidade.

Nós todos fomos ensinados que arrecadar recursos de forma amadora com 5% sobrecarga é moralmente superior a uma captação de recursos profissional com 40% sobrecarga mas estamos perdendo a informação mais importante, que é, qual é o tamanho verdadeiro disso? Quem se importa se o dinheiro conseguido vendendo tortas só é de 5%? E se só tivesse rendido 71 dólares para a causa de caridade porque não foi feito um investimento em sua escala e a captação profissional de recursos rendeu 71 milhões de dólares porque foi feito um investimento? Agora, que torta você prefere, e que torta você acha que os necessitados famintos iam preferir? Assim é que tudo isso impacta o mais global. Eu disse que doações eram 2% do PIB nos EUA. Isso é mais ou menos 300 bilhões de dólares por ano. Mas somente 20% disso, or 60 milhões, vai para as causas da saúde e direitos humanos. O resto vai para religião e educação superior e hospitais e esses 60 milhões não são nem de perto o suficiente para derrubar esses problemas. Mas se pudéssemos movimentar doações dos 2% do PIB para só um passo, para 3% do PIB, investindo nesse crescimento, isso significariam extra 150 milhões ao ano em contribuições, e se esse dinheiro pudesse ir desproporcionalmente para instituições de caridade de saúde e serviços humanos, porque são estes que encorajamos para investir em seu crescimento, isso representaria a triplicação das contribuições para o setor. Agora,estamos falando de escala. Agora estamos falando do potencial para verdadeira mudança. Mas nunca acontecerá forçando essas organizações a baixarem seus horizontes com o objetivo desmoralizante de manter a suas despesas baixas.

Nossa geração não quer ler um epitáfio ”Nós mantivemos o custo administrativo da caridade baixo” (Risos) (Aplausos) Nós queremos ler que mudamos o mundo, e que parte de como fizemos isso foi mudando a maneira como pensamos sobre essas coisas. Então, a próxima vez que estiver olhando para uma instituição de caridade, não pergunte sobre a variação dos custos administrativos. Pergunte sobre a escala de seus sonhos, uma escala de sonhos do nível Apple, Google, Amazon, como eles medem seu progresso em direção àqueles sonhos, e quais recursos eles precisam para fazer isso se tornar realidade não importa qual o tamanho do custo administrativo.

Quem se importa qual foram os custos se os problemas estiverem realmente sendo solucionados? Se nós pudermos ter esse tipo de generosidade, a do pensamento, o setor sem fins lucrativos pode desempenhar um papel gigante na mudança do mundo para todos os cidadãos em sua maior parte precisando desesperadamente de uma mudança. E se essa pode ser o legado de nossa geração, que nós nos responsabilizamos pelo pensamento que tinha sido entregue a nós, que nós o revisitamos, o revisamos, e reinventamos toda a maneira como a humanidade pensa em mudar as coisas, para sempre, para todo mundo, bem, eu achei melhor deixar as crianças resumir como isso seria.

Annalisa Smith-Pallotta: Isso seria – Sage Smith Palotta: — uma verdadeira – Rider Smith-Pallotta: — inovação social.

Dan Pallotta: Muito Obrigado. Obrigado. (Aplausos) Obrigado. (Aplausos)

sábado, 10 de agosto de 2013

A mentalidade da esquerda e seus estragos sobre os mais pobres

(por Thomas Sowell)

Quando adolescentes criminosos e assassinos são rotulados de "jovens problemáticos" por pessoas que se identificam como sendo de esquerda, isso nos diz mais sobre a mentalidade da própria esquerda do que sobre esses criminosos violentos propriamente ditos.

Raramente há alguma evidência de que os criminosos sejam meramente 'problemáticos', e frequentemente abundam evidências de que eles na realidade estão apenas se divertindo enormemente ao cometer seus atos criminosos sobre terceiros.

Por que então essa desculpa já arraigada? Por que rotular adolescentes criminosos de "jovens problemáticos" e supor que maníacos homicidas são meros "doentes"?

Pelo menos desde o século XVIII a esquerda vem se esforçando para não lidar com o simples fato de que a maldade existe — que algumas pessoas simplesmente optam por fazer coisas que elas sabem de antemão serem erradas. Todo o tipo de desculpa, desde pobreza até adolescência infeliz, é utilizada pela esquerda para explicar, justificar e isentar a maldade.

Todas as pessoas que saíram da pobreza ou que tiveram uma infância infeliz, ou ambas, e que se tornaram seres humanos decentes e produtivos, sem jamais praticarem atos violentos, são ignoradas pela esquerda, que também ignora o fato de que a maldade independe da renda e das origens, uma vez que ela também é cometida por gente criada na riqueza e no privilégio, como reis, conquistadores e escravocratas.

Logo, por que a existência do mal sempre foi um conceito tão difícil para ser aceito por muitos da esquerda? O objetivo básico da esquerda sempre foi o de mudar as condições externas da humanidade. Mas e se o problema for interno? E se o verdadeiro problema for a perversidade dos seres humanos?

Rousseau negou esta hipótese no século XVIII e a esquerda a vem negando desde então. Por quê? Autopreservação. Afinal, se as coisas que a esquerda quer controlar — instituições e políticas governamentais — não são os fatores definidores dos problemas do mundo, então qual função restaria à esquerda?

E se fatores como a família, a cultura e as tradições exercerem mais influência positiva do que as novas e iluminadas "soluções" governamentais que a esquerda está constantemente inventando? E se a busca pelas "raízes da criminalidade" não for nem minimamente tão eficaz quanto retirar criminosos de circulação? As estatísticas ao redor do mundo mostram que as taxas de homicídio estavam em declínio durante as décadas em que vigoravam as velhas e tradicionais práticas tão desdenhadas pela intelligentsia esquerdista. Já quando as novas e brilhantes ideias da esquerda ganharam influência, no final da década de 1960, a criminalidade e violência urbana dispararam.

O que houve quando ideias antiquadas sobre sexo foram substituídas, ainda na década de 1960, pelas novas e brilhantes ideias da esquerda, as quais foram introduzidas nas escolas sob a alcunha de "educação sexual" e que supostamente deveriam reduzir a gravidez na adolescência e as doenças sexualmente transmissíveis? Tanto a gravidez na adolescência quanto as doenças sexualmente transmissíveis vinham caindo havia anos. No entanto, esta tendência foi subitamente revertida na década de 1960 e atingiu recordes históricos.

Desarmamento

Uma das mais antigas e mais dogmáticas cruzadas da esquerda é aquela em prol do desarmamento. Aqui, novamente, o enfoque está nas questões externas — no caso, nas armas.

Se as armas de fato fossem o problema, então leis de controle de armas poderiam ser a resposta. Mas se o verdadeiro problema são aquelas pessoas malvadas que não se importam com a vida de outras pessoas — e nem muito menos para as leis —, então o desarmamento, na prática, fará apenas com que pessoas decentes e cumpridoras da lei se tornem ainda mais vulneráveis perante pessoas perversas.

Dado que a crença no desarmamento sempre foi uma grande característica da esquerda desde o século XVIII, em todos os países ao redor do mundo, seria de se imaginar que, a esta altura, já haveria incontáveis evidências dando sustentação a esta crença. No entanto, evidências de que o desarmamento de fato reduz as taxas de criminalidade em geral, ou as taxas de homicídio em particular, raramente são mencionadas por defensores do controle de armas. Simplesmente se pressupõe, de passagem, que é óbvio que leis mais rigorosas de controle de armas irão reduzir os homicídios e a criminalidade.

No entanto, a crua realidade não dá sustento a esta pressuposição. É por isso que são os críticos do desarmamento que se baseiam em evidências empíricas, todas elas magnificamente coletadas nos livros "More Guns, Less Crime", de John Lott, e "Guns and Violence", de Joyce Lee Malcolm. [Veja nossos artigos sobre desarmamento]. Mas que importância têm os fatos perante a visão inebriante e emotiva da esquerda?

Pobres

A esquerda sempre se arrogou a função de protetora dos "pobres". Está é uma de suas principais reivindicações morais para adquirir poder político. Porém, qual a real veracidade desta alegação?

É verdade que líderes de esquerda em vários países adotaram políticas assistencialistas que permitem aos pobres viverem mais confortavelmente em sua pobreza. Mas isso nos leva a uma questão fundamental: quem realmente são "os pobres"?

Se você se baseia em uma definição de pobreza inventada por burocratas, como aquela que inclui um número de indivíduos ou de famílias abaixo de algum nível de renda arbitrariamente estipulado pelo governo, então realmente é fácil conseguir estatísticas sobre "os pobres". Elas são rotineiramente divulgadas pela mídia e gostosamente adotadas por políticos. Mas será que tais estatísticas têm muita relação com a realidade?

Houve um tempo em que "pobreza" tinha um significado concreto — uma quantidade insuficiente de comida para se manter vivo, ou roupas e abrigos incapazes de proteger um indivíduo dos elementos da natureza. Hoje, "pobreza" significa qualquer coisa que os burocratas do governo, que inventam os critérios estatísticos, queiram que signifique. E eles têm todos os incentivos para definir pobreza de uma maneira que abranja um número suficientemente alto de pessoas, pois isso justifica mais gastos assistencialistas e, consequentemente, mais votos e mais poder político.

Em vários países do mundo, não são poucas as pessoas que são consideradas pobres, mas que, além de terem acesso a vários bens de consumo que outrora seriam considerados luxuosos — como televisão, computador e carro —, são também muito bem alimentadas (em alguns casos, até mesmo apresentam sobrepeso). No entanto, uma definição arbitrária de palavras e números concede a essas pessoas livre acesso ao dinheiro dos pagadores de impostos.

Esse tipo de "pobreza" pode facilmente vir a se tornar um modo de vida, não apenas para os "pobres" de hoje, mas também para seus filhos e netos.

Mesmo quando esses indivíduos classificados como "pobres" têm o potencial de se tornar membros produtivos da sociedade, a simples ameaça de perder os benefícios assistencialistas caso consigam um emprego funciona como uma espécie de "imposto implícito" sobre sua renda futura, imposto este que, em termos relativos, seria maior do que o imposto explícito que incide sobre o aumento da renda de um milionário.

Em suma, as políticas assistencialistas defendidas pela esquerda tornam a pobreza mais confortável ao mesmo tempo em que penalizam tentativas de se sair da pobreza. Exceto para aqueles que acreditam que algumas pessoas nascem predestinadas a serem pobres para sempre, o fato é que a agenda da esquerda é um desserviço para os mais pobres, bem como para toda a sociedade. Ao contrário do que outros dizem, a enorme quantia de dinheiro desperdiçada no aparato burocrático necessário para gerenciar todas as políticas sociais não é nem de longe o pior problema dessa questão.

Se o objetivo é retirar pessoas da pobreza, há vários exemplos encorajadores de indivíduos e de grupos que lograram este feito, e nos mais diferentes países do mundo.

Milhões de "chineses expatriados" emigraram da China completamente destituídos e quase sempre iletrados. E isso ocorreu ao longo dos séculos. Independentemente de para onde tenham ido — se para outros países do Sudeste Asiático ou para os EUA —, eles sempre começaram lá embaixo, aceitando empregos duros, sujos e frequentemente perigosos.

Mesmo sendo frequentemente mal pagos, estes chineses expatriados sempre trabalhavam duro e poupavam o pouco que recebiam. Era uma questão cultural. Vários deles conseguiram, com sua poupança, abrir pequenos empreendimentos comerciais. Por trabalharem longas horas e viverem frugalmente, eles foram capazes de transformar pequenos negócios em empreendimentos maiores e mais prósperos. Eles se esforçaram para dar a seus filhos a educação que eles próprios não conseguiram obter.

Já em 1994, os 57 milhões de chineses expatriados haviam criado praticamente a mesma riqueza que o bilhão de pessoas que viviam na China.

Variações deste padrão social podem ser encontradas nas histórias de judeus, armênios, libaneses e outros emigrantes que se estabeleceram em vários países ao redor do mundo — inicialmente pobres, foram crescendo ao longo de gerações até atingirem a prosperidade. Raramente recorreram ao governo, e quase sempre evitaram a política ao longo de sua ascensão social.

Tais grupos se concentraram em desenvolver aquilo que economistas chamam de "capital humano" — seus talentos, habilidades, aptidões e disciplina. Seus êxitos frequentemente ocorreram em decorrência daquela palavra que a esquerda raramente utiliza em seus círculos refinados: "trabalho".

Em praticamente todos os grupos sociais e étnicos, existem indivíduos que seguem padrões similares para ascenderem da pobreza à prosperidade. Mas o número desses indivíduos em cada grupo faz uma grande diferença para a prosperidade ou a pobreza destes grupos como um todo.

A agenda da esquerda — promover a inveja e o ressentimento ao mesmo tempo em que vocifera exigindo ter "direitos" sobre o que outras pessoas produziram — é um padrão que tem se difundido em vários países ao redor do mundo.

Esta agenda raramente teve êxito em retirar os pobres da pobreza. O que ela de fato logrou foi elevar a esquerda a cargos de poder e a posições de autoexaltação — ao mesmo tempo em que promovem políticas com resultados socialmente contraproducentes.

A arrogância

É difícil encontrar um esquerdista que ainda não tenha inventado uma nova "solução" para os "problemas" da sociedade. Com frequência, tem-se a impressão de que existem mais soluções do que problemas. A realidade, no entanto, é que vários dos problemas de hoje são resultado das soluções de ontem.

No cerne da visão de mundo da esquerda jaz a tácita presunção de que pessoas imbuídas de elevados ideais e princípios morais — como os esquerdistas — sabem como tomar decisões para outras pessoas de forma melhor e mais eficaz do que estas próprias pessoas.

Esta presunção arbitrária e infundada pode ser encontrada em praticamente todas as políticas e regulamentações criadas ao longo dos anos, desde renovação urbana até serviços de saúde. Pessoas que nunca gerenciaram nem sequer uma pequena farmácia — muito menos um hospital — saem por aí jubilosamente prescrevendo regras sobre como deve funcionar o sistema de saúde, impondo arbitrariamente seus caprichos e especificidades a médicos, hospitais, empresas farmacêuticas e planos de saúde.

Uma das várias cruzadas internacionais empreendidas por intrometidos de esquerda é a tentativa de limitar as horas de trabalho de pessoas de outros países — especialmente países pobres — em empresas operadas por corporações multinacionais. Um grupo de monitoramento internacional se autoatribuiu a tarefa de garantir que as pessoas na China não trabalhem mais do que as legalmente determinadas 49 horas por semana.

Por que grupos de monitoramento internacional, liderados por americanos e europeus abastados, imaginam ser capazes de saber o que é melhor para pessoas que são muito mais pobres do que eles, e que possuem muito menos opções, é um daqueles insondáveis mistérios que permeiam a intelligentsia.

Na condição de alguém que saiu de casa aos 17 anos de idade, sem ter se formado no colégio, sem experiência no mercado de trabalho, e sem habilidades específicas, passei vários anos de minha vida aprendendo da maneira mais difícil o que realmente é a pobreza. Um dos momentos mais felizes durante aqueles anos ocorreu durante um breve período em que trabalhei 60 horas por semana — 40 horas entregando telegramas durante o dia e 20 horas trabalhando meio período em uma oficina de usinagem à noite.

Por que eu estava feliz? Porque antes de encontrar estes dois empregos eu havia gasto semanas procurando desesperadamente qualquer emprego. Minha escassa poupança já havia evaporado e chegado literalmente ao meu último dólar quando finalmente encontrei o emprego de meio período à noite em uma oficina de usinagem.

Passei vários dias tendo de caminhar vários quilômetros da pensão em que morava no Harlem até a oficina de usinagem, que ficava imediatamente abaixo da Ponte do Brooklyn, e tudo para poupar este último dólar para poder comprar pão até finalmente chegar o dia de receber meu primeiro salário.

Quando então encontrei um emprego de período integral — entregar telegramas durante o dia —, o salário somado dos dois empregos era mais do que tudo que eu já havia ganhado antes. Foi só então que pude pagar a pensão, comer e utilizar o metrô para ir ao trabalho e voltar.

Além de tudo isso, ainda conseguia poupar um pouco para eventuais momentos difíceis. Ter me tornado capaz de fazer isso era, para mim, o mais próximo do nirvana a que já havia chegado. Para a minha sorte, naquela época não havia nenhum intrometido de esquerda querendo me impedir de trabalhar mais horas do que eu gostaria.

Havia um salário mínimo, mas, como o valor deste havia sido estipulado em 1938, e estávamos em 1949, seu valor já havia se tornado insignificante em decorrência da inflação. Por causa desta ausência de um salário mínimo efetivo, o desemprego entre adolescentes negros no ano de 1949, que foi um ano de recessão, era apenas uma fração do que viria a ser até mesmo durante os anos mais prósperos desde a década de 1960 até hoje.

À medida que os moralmente ungidos passaram a elevar o salário mínimo, a partir da década de 1950, o desemprego entre os adolescentes negros disparou. Hoje, já estamos tão acostumados a taxas tragicamente altas de desemprego neste grupo, que várias pessoas não fazem a mais mínima ideia de que as coisas nem sempre foram assim — e muito menos que foram as políticas da esquerda intrometida que geraram tais consequências catastróficas.

Não sei o que teria sido de mim caso tais políticas já estivessem em efeito em 1949 e houvessem me impedido de encontrar um emprego antes de meu último dólar ser gasto.

Minha experiência pessoal é apenas um pequeno exemplo do que ocorre quando suas opções são bastante limitadas. Os prósperos intrometidos da esquerda estão constantemente promovendo políticas — como encargos sociais e trabalhistas — que reduzem ainda mais as poucas opções existentes para os pobres. Quando não reduzem empregos, tais políticas afetam sobremaneira seus salários.

Parece que simplesmente não ocorre aos intrometidos que as corporações multinacionais estão expandindo as opções para os pobres dos países do terceiro mundo, ao passo que as políticas defendidas pela esquerda estão reduzindo suas opções.

Os salários pagos pelas multinacionais nos países pobres normalmente são muito mais altos do que os salários pagos pelos empregadores locais. Ademais, a experiência que os empregados ganham ao trabalhar em empresas modernas transforma-os em mão-de-obra mais valiosa, e fez com que na China, por exemplo, os salários passassem a subir a porcentagens de dois dígitos anualmente.

Nada é mais fácil para pessoas diplomadas do que imaginar que elas sabem mais do que os pobres sobre o que é melhor para eles próprios. Porém, como alguém certa vez disse, "um tolo pode vestir seu casaco com mais facilidade do que se pedisse a ajuda de um homem sábio para fazer isso por ele".

terça-feira, 2 de julho de 2013

Cura gay


"Miss the point": em inglês, a expressão significa falhar em entender a parte importante de alguma coisa. Não sei se existe uma expressão equivalente em português, mas a atual discussão da "cura gay" seria um bom exemplo dessa situação, em que pessoas se dispõem a discutir uma questão que tem solução, mas acabam discutindo um ponto que não é o importante pra chegar lá e apenas criam confusão.

Tudo começa com a Resolução 001/99, do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
           Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.
Em seguida temos o PDL 234/11 do Deputado João Campos, que propõe a sustação do parágrafo único e do artigo 4º da Resolução (coloridos em vermelho acima), ou seja, propõe que eles deixem de ser aplicados, deixem de ter efeito.

A defesa furada de Feliciano e o autoritarismo do Conselho
Nesse vídeo, Marco Feliciano argumenta que é a resolução do CFP que fala em “cura gay” e eles, da comissão, é que estão tirando a cura gay da lei, porque homossexualidade não é doença. Essa é uma das defesas mais ridículas que me lembro de ter visto. Feliciano quer fazer de conta que a mera menção a "cura gay" numa lei significaria algum tipo de preconceito ou endosso a essa prática por parte do CFP — ora, isso é uma asneira completa. Pela lógica capenga do pastor, o vídeo dele no youtube, intitulado "MARCO FELICIANO FALA TUDO DA CURA GAY", também fala "cura gay", então quer dizer que está endossando-a ou sendo preconceituoso?

A resolução fala em cura gay, sim, mas PROIBINDO-A, e não endossando-a. Ao retirar o item que fala em "cura gay" estão tirando a expressão da lei, sim, mas retirando junto a proibição de que ela seja feita. É mais ou menos como revogar algum artigo que VEDA a prática de tortura e falar “nossa, a lei falava em tortura, então como nós não apoiamos tortura, nós que fomos lá e tiramos da lei hehehe”.

Fala-se muito no "Não tem cura porque não é doença", mas a própria Organização Mundial de Saúde define saúde não apenas como a "ausência de doença", mas sim como "a situação de completo bem-estar físico, mental e social.", ou seja, mesmo uma pessoa não-doente ainda pode buscar tratamento para qualquer situação que esteja afetando seu bem-estar bio-psico-social. É por isso que ninguém precisa, por exemplo, estar com obesidade para procurar um nutricionista — e o parágrafo único proíbe justamente que psicólogos participem de "eventos e serviços que proponham TRATAMENTO e cura das homossexualidades".

Se a intenção do Conselho fosse apenas evitar o uso da palavra "cura", então a lei deveria proibir apenas a terminologia "cura" para o tratamento, e NÃO proibir até tratamentos voluntários de homossexualidade.

O truque do Conselho, assim, é colocar tudo no mesmo saco. Qualquer mudança de homossexualidade é tratada histericamente como se significasse achar que homossexualidade é doença. Não é. Algo não precisa ser doença pra poder ser tratado.

Já o parágrafo 4º proíbe até mesmo o psicólogo de "se pronunciar de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica". Se a intenção dos religiosos fosse mesmo apenas manter a possibilidade de tratamento, mas mantendo que "não é doença" e que ninguém pode dizer que é, então eles não deveriam estar tentando sustar o artigo 4º.

O que fica claro é que nenhum dos dois lados toma ações condizentes com o que dizem defender. Isso porque ambos possuem sua própria agenda: de um lado o CFP, fortemente patrocinado pela militância GLBTTT, tentando proibir qualquer opinião relativa à sexualidade que não lhes agrade; do outro, os religiosos, procurando pretextos para negar direitos aos homossexuais.

Mas afinal, apesar das atitudes contraditórias de ambos os lados — que nos dão uma boa dica das motivações tortas deles para o que estão fazendo —, os artigos deveriam ser sustados ou não?

A questão real
A discussão "é doença ou não é, pode falar que é ou não pode, pode chamar de cura ou não" é o missing the point do assunto.

Trata-se ou cura-se aquilo que é POSSÍVEL de ser curado ou tratado, enfim, mudado. Aí sim achamos a questão fundamental: é POSSÍVEL mudar a sexualidade de alguém?

Há quem diga que sim, há quem diga que não. Há quem tenha feito a mudança e diga que não dá certo. Há os que fizeram o hoje se dizem mais felizes. Com que base podemos dizer que não estão ou que é só uma ilusão? Reduzir a sexualidade a "todo mundo nasce assim e tem que morrer assim" ou "a única fonte de insatisfação dessas pessoas é o preconceito" não parece sensato.

Há casos em que a homossexualidade pode sim ser derivada de uma condição puramente biológica — nasceu assim e pronto — sendo talvez impossível de ser mudada, mas em nem todos os casos as pessoas seriam homossexuais “de nascença”. Querer restringir o fenômeno a uma única causa e dizer que ela se aplica a todo mundo, a ponto de proibí-los de sequer tentar mudar, é algo irônico, vindo de quem se diz defensor da diversidade.

A questão central é: só porque há quem ache impossível não se pode com uma resolução proibir os que acham possível de oferecerem tal tratamento a quem queira tentá-lo, ambos agindo voluntariamente. O fato é que o parágrafo único faz justamente isso: proíbe os profissionais que se sintam capazes de fazer tal mudança de oferecê-la a um paciente que queira tentá-la.

Agora, quanto ao artigo 4º, se um psicólogo resolve defender a tese de que homossexualidade é sim uma desordem psíquica, mesmo que ele esteja errado ou que essa opinião fira a sensibilidade de algumas pessoas, qual o problema?

Em geral, as pessoas apontam 2 problemas:
1- "Na prática, se retirarem a proibição, isso vai endossar ou estimular as pessoas e a religião a tentarem curar gays!"
O religioso maluco fundamentalista que acha que homossexualidade é pecado ou doença pela sua crença JÁ tenta curar gays, independentemente do que diga ou deixe de dizer o CFP.

Temos 2 cenários então. No 1º, psicólogos são proibidos de oferecerem tratamento: só vai sobrar ao gay que queira tentar mudar sua sexualidade recorrer a um desses religiosos malucos ou a um psicólogo que fará a coisa clandestinamente (o que geralmente só maus profissionais aceitam fazer), ou se contentar em não ter tratamento nenhum.

No 2º, psicólogos são autorizados: o homossexual passa a ter a chance de lidar com um profissional que poderá orientá-lo de forma responsável, em vez de clandestina.

É óbvio que o cenário em que não há proibição é muito mais benéfico aos próprios homossexuais.

Além do mais, o fato de o tratamento ser permitido não obriga os profissionais a fazê-lo. Aqueles que acham impossível tal mudança de sexualidade poderão continuar não recomendando e não praticando tal tratamento. E um profissional que prometa tratamentos que não consegue cumprir continua sendo passível de ser processado por propaganda enganosa, charlatanismo ou mesmo estelionato.

2- "Eles não podem falar que é doença porque NÃO É!"
Ciência não é (ou não deve ser, pelo menos) uma área em que um grupo elege uma verdade X ou Y e proíbe-se daí em diante as pessoas de se manifestarem contrariamente a ela porque vai "incomodar algum grupo". Ainda mais numa área tão pouco dominada quanto a mente humana.

É sempre complicado reconhecer o direito de as pessoas dizerem coisas que consideramos absurdas, mas tem se mostrado mais complicado ainda quando um grupo reivindica a prerrogativa de determinar — ou "orientar", em nome de um "bem maior" — o que pode ser dito e o que não pode.

Concluindo
Os gays devem ter os mesmos direitos de todo mundo, inclusive de casar e adotar, inclusive o de não serem tratados contra a sua vontade — e o artigo 3º, que proíbe isso, continua valendo (até porque homosssexualidade não é uma condição que retire o discernimento da pessoa). A homossexualidade ser doença ou não em NADA deve afetar esses direitos, justamente porque as pessoas não têm "direitos gays" e sim direitos de humanos.

E eles não têm, assim como ninguém tem, o direito de estabelecer um tabu na ciência que impeça psicólogos de eventualmente darem uma opinião que não lhes agrade, muito menos o de proibir que um outro homossexual recorra a um tratamento que queira voluntariamente a ser dado por um profissional que se sinta apto a dá-lo.

O ponto central, portanto, é se é atribuição estatal proibir (com as mais lindas intenções sempre, claro...) indivíduos de interagirem voluntariamente, ou ainda eleger opiniões que não possam ser manifestadas.



Leitura interessante:
Argumento de Marisa Lobo aos deputados
Nesse texto, a psicóloga Marisa Lobo explica em detalhes as consequências negativas da Resolução, tanto para psicólogos quanto para homossexuais. Notem que ela defende que homossexualidade não seja doença, apenas que há casos em que é possível haver tratamento, e mesmo assim o Conselho Federal de Psicologia tenta cassar a licença dela usando a resolução.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Passagens de ônibus, Estádios de futebol e a inflação


Se você já se perguntou "Por que o governo simplesmente não imprime mais dinheiro e dá pras pessoas pobres?" ou acha que inflação é simplesmente "uma alta generalizada de preços"*, o texto a seguir, de Alexandre Versignassi, responde a todas essas questões de forma muito clara e fácil.


Para entender melhor o que está acontecendo na rua, imagine que você é o presidente de um país fictício. Aí você acorda um dia e resolve construir um estádio. Uma “arena”.

O dinheiro que o seu país fictício tem na mão não dá conta da obra. Mas tudo bem. Você é o rei aqui. É só mandar imprimir uns 600 milhões de dinheiros que a arena sai.

Esses dinheiros vão para bancar os blocos de concreto e o salário dos pedreiros. Eles recebem o dinheiro novo e começam a construção. Mas também começam a gastar a grana que estão recebendo. E isso é bom: se os caras vão comprar vinho, a demanda pela bebida aumenta e os vinicultores do seu país ganham uma motivação para produzir mais bebida. Com eles plantando mais e fazendo mais vinho o PIB da sua nação fictícia cresce. Imprimir dinheiro para construir estádio às vezes pode ser uma boa mesmo.

Mas e se houver mais dinheiro no mercado do que a capacidade de os vinicultores produzirem mais vinho? Eles vão leiloar as garrafas. Não num leilão propriamente dito, mas aumentando o preço. O valor de uma garrafa de vinho não é o que ela custou para ser produzida, mas o máximo que as pessoas estão dispostas a pagar por ela. E se muita gente estiver com muito dinheiro na mão, essa disposição para gastar mais vai existir.

Agora que o preço do vinho aumentou e os vinicultores estão ganhando o dobro, o que acontece? Vamos dizer que um desses vinicultores resolve aproveitar o momento bom nos negócios e vai construir uma casa nova, lindona. E sai para comprar o material de construção.

Só tem uma coisa. Não foi só o vinicultor que ganhou mais dinheiro no seu país fictício. Foi todo mundo envolvido na construção do estádio e todo mundo que vendeu coisas para eles. Tem bastante gente na jogada com os bolsos mais cheios. E algumas dessas pessoas podem ter a idéia de ampliar as casas delas também. Natural.

Então as empresas de material de construção vão receber mais pedidos do que podem dar conta. Com vários clientes novos e sem ter como aumentar a produção do dia para a noite, o cara do material de construção vai fazer o que? Vai botar o preço lá em cima, porque não é besta.

Mas espera um pouco. Você não tinha mandado imprimir 600 milhões de dinheiros para fazer um estádio? Mas e agora, que ainda não fizeram nem metade das arquibancadas e o material de construção já ficou mais caro? Lembre-se que o concreto subiu justamente por causa do dinheiro novo que você mandou fazer.

Mas, caramba, você tem que terminar a arena. A Copa das Confederações Fictícias está logo ali… Então você dá a ordem: “Manda imprimir mais 1 bilhão e termina logo essa joça”. Nisso, os fabricantes de material e os funcionários deles saem para comprar vinho… E a remarcação de preços começa de novo. Para quem vende o material de construção, tudo continua basicamente na mesma. O vinho ficou mais caro, mas eles estão recebendo mais dinheiro direto da sua mão.

Mas para outros habitantes do seu país fictício a situação complicou. É o caso dos operários que estão levantado o estádio. O salário deles continua na mesma, mas agora eles têm de trabalhar mais horas para comprar a mesma quantidade de vinho.

O que você fez, na prática, foi roubar os peões. Ao imprimir mais moeda, você diminuiu o poder de compra dos caras. Inflação é um jeito de o governo bater as carteiras dos governados.

Foi mais ou menos o que aconteceu no mundo real. Primeiro, deixaram as impressoras de dinheiro ligadas no máximo. Só para dar uma ideia: em junho de 2010, havia R$ 124 bilhões em cédulas girando no país. Agora, são R$ 171 bilhões. Quase 40% a mais. Essa torrente de dinheiro teve vários destinatários. Um deles foram os deputados, que aumentaram o próprio salário de R$ 16.500 para de R$ 26.700 em 2010, criando um efeito cascata que estufou os contracheques de TODOS os políticos do país, já que o salário dos deputados federais baliza os dos estaduais e dos vereadores. Parece banal. E até é. Menos irrelevante, porém, foi outro recebedor dos reais novos que não paravam de sair das impressoras: o BNDES, que irrigou nossa economia com R$ 600 bilhões nos últimos 4 anos. Parte desse dinheiro se transformou em bônus de executivo. Os executivos saíram para comprar vinho… Inflação. Em palavras mais precisas, o poder de compra da maioria começou a diminuir. Foi como se algumas notas tivessem se desmaterializado das carteiras deles.**

Algumas dessas carteiras, na verdade, sempre acabam mais ou menos protegidas. Quem pode mais tem mais acesso a aplicações que seguram melhor a bronca da inflação (fundos com taxas de administração baixas, CDBs que dão 100% do CDI…, depois falamos mais sobre isso). O ponto é que o pessoal dos andares de baixo é quem perde mais.

Isso deixa claro qual é o grande mal da inflação: ela aumenta a desigualdade. Não tem jeito. E esse tipo de cenário sempre foi o mais propício para revoltas (justificadas ou não; violentas ou não). Revoltas que começam com aquela gota a mais que faz o barril transbordar. Os centavos a mais no ônibus foram essa gota.



*Pelo que pudemos ver, definir a inflação como uma "alta generalizada de preços" é como definir uma febre como a "alta generalizada da temperatura". O aumento de preços, assim como o de temperatura, é um SINTOMA; a causa da inflação é na verdade o aumento da quantidade de dinheiro sem lastro em riqueza real, causada pelo próprio governo ao imprimir mais e mais dinheiro. É por isso também que não adianta só imprimir dinheiro para pagar contas.

**Se nos lembrarmos de que o capitalismo se caracteriza pelo respeito ao direito de PROPRIEDADE, fica fácil entender porque não tem nada de capitalismo em governos que causam inflação: eles estão lesando a propriedade de seus cidadãos!

Por fim, especificamente sobre a questão dos protestos, é lamentável que os manifestantes estejam protestando apenas contra os preços e a (falta de) qualidade do serviço, que são da mesma forma meros sintomas, causados pelo sistema de concessões — contra o qual não se está falando nada contra. Mas isso já foi discutido nesse post.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Estado Laico


No dia 27 desse mês foi aprovada por uma Comissão da Câmara dos Deputados uma proposta de lei (PEC99/11) que, segundo alguns sites, "acabaria com o Estado Laico brasileiro". A notícia do Pragmatismo Político, dentre tantas, resume bem a confusão e histeria que estão tentando criar sobre o assunto:
Proposta que enterra o Estado Laico no Brasil pode ser aprovada na Câmara
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) já aprovou permissão para religiosos interferirem nas leis brasileiras
Pra entender a questão, vamos começar do começo:

O que se pode fazer se for aprovada uma lei contrária à nossa Constituição?
Uma das opções é propor uma Ação Direta de Inconstitucionalidade ou uma Ação Declaratória de Constitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ambas são formas de consultar o STF para que ele julgue se uma lei está de acordo ou não com a nossa Constituição — e se essa lei deve, portanto, ser mantida ou revogada.

A proposição destas ações pode ser feita:

- pelo Presidente, Governador, Mesas do Senado, da Câmara ou de Assembléia Legislativa;
- pelo Procurador-Geral da República;
- pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB);
- por partido político com representação no Congresso Nacional; 
- por confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.

A tão temida proposta que passou pela CCJ permite que entidades religiosas também possam propor tais ações — da mesma forma que outros já podem propor. Apenas isso.

Note bem: "Propor", e não "impor" alguma coisa. Ao contrário do que aconteceria numa Teocracia de verdade, em que as religiões impõem o que bem entenderem, aqui as entidades religiosas, assim como todas as demais, simplesmente passarão a poder questionar a constitucionalidade de alguma lei. Para decidir se a lei questionada parmanece ou se deve ser revogada, é o STF que avalia se a tal lei está ou não de acordo com a Constituição (e não "de acordo com a Bíblia ou com os valores da religião X"). Os religiosos podem ser parciais na hora de propor as ações? Sim, assim como todos os outros também podem ser. Isso é irrelevante, porque ainda é o STF, imparcial, quem vai julgar a questão.

Mas e o estado laico?
Esquerdistas e antirreligiosos em geral têm sempre na ponta da língua que "estado laico é aquele em que o Estado fica separado das religiões". Na cabeça deles, isso quer dizer que religiosos não podem participar da vida política com seus valores religiosos — mas ao mesmo tempo os esquerdistas, por exemplo, podem participar com seus próprios valores. Conveniente, não?

Alguns dirão que a questão, na verdade, é "evitar que um grupo imponha seus valores sobre os demais que não compartilham da mesma crença". Ok, muito bem! Mas eu também não acredito em valores esquerdistas como afrouxamento penal e indultos de Natal para presos, e mesmo assim esquerdistas impuseram-me conviver com a insegurança causada por tais leis. Também não acredito em financiar via impostos Estados inchados, mesmo assim tais leis baseadas em valores de esquerda me foram impostas e pago impostos absurdos da mesma forma. (O mesmo vale para as imposições conservadoras contra venda de drogas, contra casamento de pessoas do mesmo sexo, etc...)

Ou seja, o truque é deturpar o conceito de Estado Laico de uma forma em que só os religiosos são excluídos da participação na vida política, (enquanto outros grupos não são, ainda que façam tantas imposições quanto). Isso não é estado laico, é estado ateu.

A laicidade significa apenas que o estado não pode privilegiar uma religião em detrimento das outras, nem privilegiar as religiões em detrimento dos demais grupos — nem os demais grupos em detrimento das religiões. O que um pode, os outros podem; o que um não pode, os outros não podem.

Se esquerdistas podem criar e propor leis baseadas em seus valores, é perfeitamente laico que religiosos também possam fazê-lo. Se o problema é "um lado impondo seus valores sobre outro", a questão então é nosso sistema em que 51% podem impor (democraticamente!) restrições aos direitos dos 49% restantes — a solução contra isso é um Estado Mínimo, um conceito mais amplo e que engloba o de Estado Laico.

Então, voltando à proposta em que entidades religiosas também poderiam propor as ações de constitucionalidade, a partir do momento em que confederações sindicais e entidades de classe de âmbito nacional e a OAB podem propor tais ações, se as religiões não puderem propô-las também então estão tendo menos prerrogativas do que os demais grupos.

No fim das contas, a lei que acusam de criar uma "teocracia" no Brasil é completamente LAICA.

Amém?

terça-feira, 12 de março de 2013

Invertendo o jogo: os outros também precisam solucionar problemas


É extremamente comum, ao fazermos a defesa de uma sociedade livre de intervenções e coerções estatais, os defensores do sistema vigente apelarem para efusões de sentimentalismo, como se afetações de "preocupação para com os desvalidos" fossem argumentos imbatíveis.

Em vez de atacarem os argumentos éticos, morais e econômicos em prol de uma sociedade livre, tudo o que eles fazem é inventar algumas hipóteses "desumanas" que, segundo eles, seriam frequentes em um ambiente de liberdade. Eis os exemplos mais comuns desta afetação de coitadismo a que recorrem:
"Sem saúde pública, o que ocorrerá a um sujeito pobre que ficar doente, não tiver plano de saúde, e não conseguir convencer amigos, familiares ou instituições de caridade a pagarem por seu tratamento?"

"Sem educação pública, como os pobres irão se educar?"

"E se um idoso for fraudado por uma empresa de previdência privada e os criminosos desta empresa desaparecerem com todo o seu dinheiro?"

"E se uma criança pobre estiver morrendo de fome nas ruas, e ninguém se oferecer para alimentá-la?"

"E se um sujeito sem instrução e sem nenhuma habilidade prática não conseguir arrumar um emprego, quem irá ajudá-lo?"
Quem é contra o estado inchado é muitas vezes obrigado a se defrontar com esses questionamentos. Se for ingênuo e disser “Ah, isso não é problema meu!”, ou disser que não há nenhuma solução para tais situações, o estatista capitalizará politicamente.

E sairá de fininho, posando de vitorioso... a não ser que você lhe devolva as perguntas. Afinal, será que o sistema que ele defende consegue dar respostas satisfatórias às questões que ele fez? Por exemplo:
"A saúde pública atual consegue atender bem esse sujeito pobre do seu exemplo?"

"Os pobres estão sendo bem educados pela educação pública?"

"A previdência pública tem dado condições satisfatórias aos aposentados?"
Ora, o pior cenário que os defensores do estado imaginam que irá ocorrer em um cenário de liberdade já ocorre rotineiramente no cenário estatista que eles defendem! O estatismo, defendido pelo oponente, é parte vigente da sociedade atual, que é repleta de injustiças e atrocidades mesmo em um cenário onde pagamos um absurdo de impostos — e eles criticam nossas propostas por (supostamente) terem problemas que nem as deles solucionam.

Na verdade, não precisamos nos limitar a apenas devolver as perguntas feitas. A sugestão é que sejam lançados questionamentos para contrangê-los também.
"E se o Congresso aprovar uma lei injusta, o presidente sancioná-la e o Supremo Tribunal impingi-la?"

"E se o governo decretar que é proibido trabalhar em troca de um determinado valor salarial?"

"E se o governo proibir a concorrência em determinados setores da economia?"

"E se o governo quiser desarmar a população?"

"E se o governo for leniente com sequestradores, assassinos e grupos terroristas ideologizados?"

"E se o governo estipular que as empresas devem contratar de acordo com critérios de cor e preferência sexual, e não de competência?"

"E se o governo decretar que determinadas opiniões são proibidas, sendo passivas de encarceramento?"

"E se o governo estipular que apenas seus empresários favoritos podem receber subsídios e atuar em determinados mercados?"

"E se o governo resolver desapropriar moradores pobres para construir ruas, estradas ou complexos esportivos nesses locais, favorecendo suas empreiteiras favoritas?"

"E se o governo decidir encarecer a importação de produtos de qualidade?"

"E se o governo estipular regras e burocracias que dificultem sobremaneira o empreendedorismo?"

"E se o governo decretar que apenas os seus serviços de segurança e justiça podem ser utilizados? E se estes forem ruins?"

"E se os integrantes do governo praticarem corrupção? Quem irá puni-los, uma vez que os serviços de justiça foram decretados monopólio estatal?"

"E se o governo assumir o controle da educação, determinando os currículos das escolas e das universidades, tornando a população mais imbecilizada?"

"E se o governo assumir o monopólio da moeda e decidir inflacioná-la continuamente, destruindo a poupança dos trabalhadores?"

"E se o governo aumentar continuamente o confisco da renda dos cidadãos para repassar o butim à sua própria burocracia e a grupos de interesse politicamente bem organizados?"

"E se o governo me recrutar compulsoriamente e me enviar para uma guerra injusta, e eu sofrer uma morte horrenda e dolorosa?"

"E se aquele pobre para quem o governo dá esmolas resolver gastar todo o dinheiro com cachaça, cigarro e jogatina?"

"E se uma pessoa se entregar a um estilo de vida nada saudável e onerar a saúde pública?"

"E se o governo decidir encarcerar pessoas pelo simples fato de elas injetarem determinadas substâncias em seus próprios corpos?"

"E se uma pessoa, levada pela certeza de que a Previdência Social cuidará dela até sua morte e que o governo lhe dará todos os remédios necessários, se entregar a um estilo de vida pouco saudável e ter uma velhice inválida e sofrida?"

"E se o governo decidir que eu sou obrigado a financiar programas dos quais discordo moral e eticamente?"

"E se o governo decidir mandar para a cadeia todos aqueles que não lhe pagarem tributos?"
Note que, uma vez que você começa o jogo do "e se", é difícil parar de imaginar hipóteses. Pense em qualquer sistema político: garantimos ser capazes de gerar infinitas hipóteses desconcertantes para irritar seus defensores — muito mais do que eles pretendiam criar pra nós.

É essencial ressaltarmos que, enquanto os críticos da liberdade se reduzem a apenas inventar hipóteses ruins que poderiam ocorrer em um sistema sem coerção estatal, todos os nossos "e se" acima apresentados já são realidade em um sistema de coerção estatal. Todos eles já estão ocorrendo neste exato momento sob o sistema de governo que eles defendem. Por que somos nós que temos de ficar na defensiva ao advogar um sistema que se oponha a tudo isso? Eles é que têm de apresentar justificativas para o sistema atual. Nunca testemunhamos a ocorrência de uma sociedade libertária; vivemos em uma sociedade estatista. Quem defende o atual modelo, com a existência de um estado, é que tem a obrigação de responder de pronto a todas as perguntas acima. E então, só então, ele estará em posição de fazer perguntas

Sinceramente, o que há de tão reconfortante nessa garantia estatal? Mais ainda: o que há de tão reconfortante nessa garantia quando ela vem acompanhada de uma lista de inúmeras mazelas diariamente cometidas pelo governo?


Baseado no artigo do IMB

quarta-feira, 6 de março de 2013

Qual o papel de um presidente?


A imagem é do Porco Capitalista, o texto abaixo é de Lew Rockwell (com adaptações):

"A cada quatro anos, em cada eleição presidencial, eu tenho o mesmo sonho: eu não sei ou não me importo em saber quem será o presidente. Mais importante: eu não preciso saber, nem me preocupar com isso. Eu não tenho que votar ou prestar atenção em debates. Eu posso ignorar todas as propagandas políticas. Não existem riscos em jogo, seja para o meu país ou para minha família. Minha liberdade e minha propriedade estão tão asseguradas que, francamente, não faz diferença quem vença. Eu nem preciso saber seu nome.

O presidente é apenas uma figura representativa, sem autoridade real; um símbolo, que é quase invisível para mim e para minha comunidade. Ele não tem a riqueza pública à sua disposição. Ele não administra ministérios reguladores. Ele não pode nos taxar, nem dar subsídios aos ricos ou aos pobres, nem indicar juízes que irão retirar nosso direito à autonomia, nem controlar um banco central que inflaciona a oferta monetária e provoca os ciclos econômicos, e nem mudar as leis autoritariamente -- seja para agradar aos interesses especiais daqueles de quem ele gosta, seja para punir aqueles que o desagradam.

A Função do Presidente

Sua função é simplesmente supervisionar um governo minúsculo, virtualmente sem poder, exceto para arbitrar disputas entre estados, que são as principais unidades governamentais. Ele é o líder do estado, mas nunca o líder do governo. Sua posição, na verdade, é de constante subordinação aos funcionários ao redor dele e aos milhares de políticos em nível estadual e municipal. Ele adere às rigorosas regras da lei e está sempre ciente de que, no momento em que ele cometer uma transgressão e tentar expandir seu poder, será impedido e deposto como um criminoso.

O presidente pode ser um herdeiro rico, um empresário de sucesso, um intelectual altamente preparado, ou um fazendeiro proeminente. Independente disso, seus poderes são mínimos. A sua equipe é minúscula, e está quase sempre ocupada com assuntos cerimoniais, como a assinatura de proclamações e o agendamento de encontros com outros chefes de estado.

A presidência não é uma posição a ser avidamente perseguida, mas, sim, concedida como honorária e temporária. Para garantir que isso ocorra, a pessoa escolhida para vice-presidente é o principal adversário político do presidente. O vice-presidente, portanto, serve como uma lembrança constante de que o presidente é eminentemente substituível. Dessa maneira, o cargo de vice-presidente é muito poderoso — não em relação ao povo, mas para manter o executivo sob estrita vigilância.

O Governo Invisível

Aqueles que não votam e não ligam para política têm sua liberdade garantida. Eles não têm direitos especiais, contudo seus direitos à individualidade, à propriedade e à autonomia nunca são postos em dúvida. Por essa razão, e por todos os propósitos práticos, eles podem se esquecer do presidente e, consequentemente, do resto do governo federal. Não faz diferença se ele existe ou não. As pessoas não pagam impostos diretamente a ele. Ele não diz às pessoas como elas devem conduzir suas vidas. Ele não as manda para guerras, não controla suas escolas, não paga suas aposentadorias, e muito menos as emprega para espionar e extorquir seus concidadãos. O governo é praticamente invisível.

As controvérsias políticas que me envolvem tendem a ser em nível comunitário, municipal ou, no máximo, estadual. E isso ocorre para todos os assuntos, incluindo impostos, educação, crime, assistencialismo, e até imigração. A única exceção é a defesa geral da nação, embora o exército de prontidão seja bem pequeno e com várias milícias baseadas nos estados, em caso de necessidade. O presidente é o comandante-em-chefe das forças armadas federais, mas essa é uma posição secundária a menos que o congresso declare guerra. Essa função requer não mais do que garantir a impenetrabilidade das fronteiras por agressores estrangeiros.

O poder legislativo sobre o público praticamente não existe. Os congressistas não têm prerrogativa para aumentar seu poder.

Assim, no meu sonho, não há praticamente nada em jogo na próxima eleição presidencial. Não importa qual seja o resultado, eu mantenho minha liberdade e minha propriedade.

Extrema Descentralização

A política desse país é extremamente descentralizada, mas a população é unida por uma economia que é perfeitamente livre e por um sistema de comércio que permite às pessoas se associarem voluntariamente, inovarem, pouparem, e trabalharem baseando-se em benefícios mútuos. A economia não é controlada, estorvada ou mesmo influenciada por qualquer comando central.

As pessoas podem ficar com aquilo que ganham. A moeda que elas usam para comerciar é sólida, estável, e lastreada. Capitalistas podem abrir e fechar seus negócios à vontade. Trabalhadores são livres para aceitar qualquer trabalho que quiserem, sob qualquer salário e na idade que quiserem. Os negócios têm apenas dois objetivos: servir o consumidor e obter lucros.

Não existem controles trabalhistas, benefícios compulsórios, impostos sobre folhas de pagamento, ou outras regulamentações. Por essa razão, cada um se especializa naquilo em que é melhor, e as trocas pacíficas entre os empreendimentos voluntários causam crescentes ondas de prosperidade por todo o país.

O formato que a economia vai tomar — seja agrícola, industrial, ou de alta tecnologia — não interessa ao governo federal. Permite-se que o comércio aconteça livre e naturalmente, e todos compreendem que ele deve ser gerenciado por proprietários, não por funcionários públicos. O governo federal não poderia criar impostos quando quisesse, muito menos taxar a renda, e o comércio com nações estrangeiras seria competitivo e livre.

Se por algum motivo esse sistema de liberdade começar a se decompor, a minha própria comunidade — o estado no qual eu moro — tem uma opção: se separar do governo federal, formar um novo governo, e se juntar a outros estados nesse esforço. A secessão é sempre permitida. Essa foi parte da garantia requerida para tornar possível que o país fosse uma federação. E, de tempos em tempos, os estados ameaçam uma secessão, apenas como forma de mostrar ao governo federal quem está no comando.

Esse sistema reforça o fato de que o presidente não é o presidente do povo, muito menos seu comandante-em-chefe, mas meramente o presidente do país. Ele serve apenas com sua permissão e somente como líder simbólico dessa união voluntária de comunidades políticas mais importantes. Esse presidente jamais poderia fazer pouco caso dos direitos dos estados, muito menos violá-los na prática, porque assim ele estaria traindo seu juramento e arriscando ser expelido do cargo.

Nessa sociedade sem administração central, uma vasta rede de associações privadas serve como a autoridade social dominante. Comunidades religiosas exercem vasta influência sobre a vida pública e privada, assim como o fazem também entidades civis e líderes comunitários de todos os tipos. Eles criam uma enorme miscelânea de associações e uma verdadeira diversidade na qual cada indivíduo e grupo encontra um lugar.

Essa combinação de descentralização política, liberdade econômica, livre comércio, e autonomia seria capaz de criar a mais próspera, diversa, pacífica e justa sociedade que o mundo jamais conheceu.

Sem Utopia, nem credulidade

Seria isso uma utopia? Na verdade, nada mais é do que o resultado da minha premissa inicial: que o presidente é tão restringido que não é nem importante saber quem ele é. Isso significa uma sociedade livre que não é controlada por ninguém, exceto por seus membros em suas qualidades de cidadãos, pais, trabalhadores e empreendedores.

Esse seria um país onde as pessoas deveriam governar a si mesmo e a planejar sua própria economia, e não tê-la planejada por burocratas em uma capital distante. O presidente nunca se interessaria pelo bem-estar do povo porque o governo federal não teria voz nesse assunto. Isso seria deixado para as comunidades políticas populares decidirem.

Como Thomas Jefferson escreveu, um governo livre é fundamentado na desconfiança, e não na confiança. James Madison também havia alertado: "Desconfie sempre de todos os homens que têm poder ".

Podemos adicionar dizendo que qualquer governo que empregue milhões de pessoas, a maioria delas armadas até os dentes, deve ser digno de enorme desconfiança. Essa é uma atitude cultivada pela mente liberal-clássica, que premia e incentiva a liberdade dos indivíduos e das comunidades para controlarem suas próprias vidas.

O recém-findado século XX foi o século de Rousseau. E com a ajuda das doutrinas estatistas de Marx e Keynes, este foi também o mais sanguinário dos séculos da história humana. A ideia de governo que esses autores tinham era exatamente oposta à do pensamento liberal-clássico. Eles alegavam que a sociedade não pode governar a si mesma; ao invés da vontade geral, os interesses do proletariado ou os planos econômicos das pessoas precisam ser organizados e incorporados na nação e naqueles que a controlam.

E hoje, de fato, com a glorificação da democracia, o indivíduo, a família, e a comunidade -- as unidades essenciais de uma sociedade livre -- não só foram reduzidos a servos federais, tendo apenas a liberdade que o governo os permite ter, como também foram obrigados a agir como parte de uma ordem nacional coletivista que está por toda parte. Nenhuma grande figura política nacional propõe mudar isso.

Esse fato suscita uma compreensão central da tradição intelectual liberal-clássica. O governo não tem nenhum poder ou recurso que antes não tenha tomado das pessoas. Ao contrário das empresas privadas, ele não pode produzir nada. O que quer que ele tenha, ele deve extrair da iniciativa privada. Embora isso tenha sido bem compreendido no século XVIII, bem como em grande parte do século XIX, tudo foi quase que totalmente esquecido no século do socialismo e do estatismo, do Nazismo, do Comunismo, do New Deal, do assistencialismo, e das guerras.

Liberalismo

Nos séculos XVIII e XIX, o termo liberalismo geralmente se referia a uma filosofia de vida pública que afirmava o seguinte princípio: sociedades e todas as suas partes não necessitam de um controle central administrador porque as sociedades normalmente se administram por meio da interação voluntária de seus membros para seus benefícios mútuos.

Liberalismo clássico significa uma sociedade na qual meu sonho é uma realidade. Não precisamos saber o nome do presidente. O resultado das eleições é altamente irrelevante porque a sociedade é regida por leis e não por homens. Não tememos o governo porque ele não nos tira nada, não nos dá nada, e nos deixa em paz para moldarmos nossas vidas, comunidades e futuros.

Essa visão do governo e da vida pública foi destruída em nosso século e em quase todos os países do mundo. Atualmente, em todos os países, o presidente (ou primeiro-ministro) é extremamente poderoso e controlador, especialmente se levarmos em conta todas as agências executivas que ele controla. Seu poder só é rivalizado por aquele indivíduo que comanda as impressoras monetárias, o presidente do Banco Central.

Restauração

O liberalismo clássico funcionaria nos dias de hoje? Pense nas questões litigiosas da sociedade atual. Cada uma certamente envolve uma área que está relacionada com alguma forma de intervenção governamental. Os conflitos atuais giram em torno do desejo de apoderar-se da propriedade de terceiros usando para esse fim o aparato político de coerção que é o estado. A nossa sociedade seria mais pacífica e próspera se tivesse seguido o programa liberal? A pergunta carrega sua própria resposta.

Agora, de volta ao meu devaneio. Eu não conheço e nem me preocupo em conhecer as políticas presidenciais porque elas não importam de maneira alguma. Minha liberdade e propriedade estão tão asseguradas que, francamente, não faz diferença quem vença as eleições. Mas, para atingir esse objetivo, nenhum de nós pode abster-se das batalhas políticas e intelectuais de nossa época."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Esquerdistas: mais inteligentes e bonzinhos ou mais mentirosos?


Uma das primeiras coisas que esquerdistas se preocupam em fazer ao entrar em um debate é criar rótulos bons para si e ruins para os adversários: isso significa se auto-venderem como tolerantes, bondosos, empáticos, caridosos, inteligentes, iluminados, científicos, etc — e, claro, dizer que o outro lado não é nada disso, e sim um bando de mesquinhos ricos que não se importam com os necessitados.

Ainda mais se puderem relacionar um estudo como o a seguir:
Um estudo feito pela Universidade Brock, de Ontário (Canadá) coletou dados por mais de 50 anos e chegou a uma polêmica conclusão: pessoas com ideologia de esquerda (ou liberal, como dizem no hemisfério norte) são mais inteligentes que pessoas de direita e conservadoras.

Após entrevistar cerca de 15 mil pessoas no Reino Unido em 1958 e 1970, os pesquisadores compararam os níveis de inteligência com a posição política dos participantes da pesquisa depois de adultos.

Como efeito de comparação: pessoas muito conservadoras tinham Quociente de Inteligência de 94 pontos (a média é 100). Pessoas de centro tinham QI de 100 pontos e as pessoas muito liberais tinham QI médio de 106 pontos.

Logo de cara é importante notar que os resultados médios (entre 94-106 pontos) ficaram rigorosamente dentro da faixa entre 90-109, considerada de inteligência média (inteligência acima da média começa a partir de 110; inteligência superior acima de 120 e superdotação acima de 130). Ou seja, pelo estudo NÃO se pode declarar que alguma das posições políticas seja "a opção do grupo de gênios".

Outro ponto que podem querer sugerir é que a opção pelo liberalismo/esquerdismo seria fruto de alguma ponderação racional que as pessoas com QI mais alto teriam feito, Mas considerando que pessoas com QI mais alto tendem a ir mais longe na vida acadêmica e que há extensa doutrinação de esquerda nesses locais, pode muito bem ser que as pessoas com QI mais elevado se digam esquerdistas não por terem posto sua inteligência para fazer um julgamento, mas simplesmente por falta de terem sido apresentadas decentemente a outras alternativas. Resumindo, correlação (entre QI e escolha política) não significa causação (que o QI tenha causado a escolha política).

Pois bem, o estudo nos mostra um grupo em média mais inteligente do que outro, e o grupo mais inteligente foi colocado como esquerda/liberal. O ponto é: o que significa esquerda/liberal para eles?

É aqui que a coisa fica interessante.

A notícia tem um link para o psychology today, onde um artigo defende que o liberalismo/esquerdismo poderia ser "razoavelmente definido como a preocupação genuína com o bem-estar dos outros geneticamente independentes e a vontade de contribuir com maiores proporções de recursos privados para o bem-estar destes outros".

Ainda de acordo com eles, "no contexto político moderno e econômico, essa vontade geralmente se traduz em maiores proporções de destinação da renda individual em impostos para o governo e seus programas sociais. Liberais normalmente apoiam tais programas sociais e aumento de impostos para financiá-los, e os conservadores geralmente se opõem a eles".

O truque aqui é sugerir que a forma de externar a vontade de ajudar os demais é via programas de governo: como liberais apoiam tais programas, eles seriam então os que querem ajudar, enquanto os conservadores, que são contra, seriam os que não querem ajudar os demais.

Opa, mas espere aí, a única e melhor forma de zelar pelo bem-estar dos outros é através do governo e seus programas sociais? É claro que não, pois também existe a caridade privada, na qual as pessoas doam seus recursos privados de forma direta e voluntária.

E, de acordo com os dados abaixo, mais efetiva:


É isso que os conservadores defendem.

Ou seja, de início já vemos que a "definição razoável" usada por eles é um jogo de rótulos dos mais sem-vergonhas. O elemento "Preocupação genuína com o bem-estar dos outros" não é, de forma alguma, uma característica inerente aos liberais/esquerdistas. Muito menos a única forma de se medir essa preocupação seria através da disposição das pessoas em patrocinar governos — pois pode-se ajudar os necessitados (de forma muito mais eficiente, inclusive) doando-se DIRETA E PRIVADAMENTE A ELES o próprio dinheiro em vez de dá-lo a políticos para ser desviado.

Já dá pra começarmos uma definição realmente honesta e compatível com os fatos: em relação a ajudar os demais, liberais/esquerdistas são os que defendem ajuda via inchaço estatal; conservadores/direitistas são os que defendem ajuda privada, voluntária e mais eficiente. Só isso.

Mas os esquerdistas ficaram tão empolgados com o estudo que começaram até mesmo a devanear racionalizações e uma hipótese que o resultado da pesquisa corroboraria:
"A hipótese é que indivíduos mais inteligentes devem ser mais capazes do que os indivíduos menos inteligentes de compreender e lidar com entidades e situações evolutivamente novas (e não evolutivamente familiares). Definido como tal [e já vimos que tal definição é uma besteira], o liberalismo é evolutivamente novo. Os seres humanos (como outras espécies) são evolutivamente concebidos para serem altruístas para com seus parentes genéticos, seus amigos e aliados, e os membros de sua deme ou grupo étnico. Eles não são projetados para serem altruístas em direção a um número indefinido de completos estranhos, que eles não estão suscetíveis de conhecer ou interagir. Isso porque os nossos antepassados ​​viviam em pequenos bandos de 50-150 indivíduos geneticamente relacionados, e grandes cidades e nações com milhares e milhões de pessoas são uma inovação evolutiva. (...) O liberalismo é, portanto, mais provável de ser adotado por indivíduos mais inteligentes do que pelos menos inteligentes."
Este é um padrão comum da crença esquerdista, o de que o homem através de alguma âncora positiva (pode ser "a ciência", "a razão", "a inteligência"...) vai alcançar um novo estágio na evolução superando sua condição anterior e se tornando mais empático, pacífico, etc...

Mas será que algum dos lados realmente "se preocupa mais genuinamente"? Já sabemos que esquerdistas adoram DIZER que se preocupam mais, mas dizer é fácil: Será que NA PRÁTICA liberais são os que mais doam? Esta sim é uma boa forma de avaliar quem realmente se preocupa mais.

Arthur Brooks, professor da Universidade de Syracuse, fez um estudo sobre doações para entidades filantrópicas nos EUA, que revelou que os conservadores doam 30% A MAIS para instituições de caridade do que doam os esquerdistas/liberais, apesar do fato de os esquerdistas/liberais terem rendas mais elevadas do que os conservadores.

Huumm... embora esquerdistas queiram se definir como "os mais dispostos a doar", na hora de REALMENTE DOAR o próprio dinheiro — que é o que importa, certo? — conservadores saem na frente.

Os esquerdistas até que tentam inventar uma desculpa pra esse furo, relacionada à questão de "doações a indivíduos geneticamente independentes":
"O fato de conservadores doarem mais dinheiro para caridade do que os liberais não é inconsistente com a previsão da hipótese, na verdade, é suportado por ela. Normalmente indivíduos podem escolher e selecionar os beneficiários de suas doações de caridade. Por exemplo, eles podem escolher dar dinheiro às vítimas de um terromoto no Haiti, porque querem ajudá-los, mas não dar dinheiro às vítimas do terremoto no Chile, porque eles não querem ajudá-los. Em contraste, cidadãos não têm nenhum controle sobre a quem o dinheiro que pagam em impostos beneficiará. Eles não podem individualmente escolher pagar taxas para financiar a saúde pública, porque querem ajudar idosos brancos, mas para não ajudar afrodescendentes, porque eles não querem ajudar mães solteiras negras e pobres. Isso pode ser precisamente por que conservadores escolhem dar mais dinheiro para caridade individual à sua escolha enquanto se opõem a mais impostos."
Mas a desculpa é completamente esfarrapada. Uma coisa é QUANTO se doa, outra coisa é pra QUEM se doa. Se esquerdistas são mesmo "genuinamente preocupados com o bem-estar dos outros geneticamente independentes e dispostos a contribuir com maiores quantidades em prol deles", eles deveriam doar TANTO QUANTO (ou melhor, MAIS do que) os conservadores, apenas dirigindo tal quantidade de doações para esses grupos "externos" de indivíduos. O fato de conservadores doarem mais é sim incompatível com a hipótese.

Agora, será mesmo que conservadores doam mais, mas só entre os seus semelhantes?

Até nisso estão errados. Os cristãos, diz Brooks, "fazem mais caridade em todos os aspectos não religiosos que dá para se medir".

Brooks revelou que os conservadores doam mais em tempo, serviços e até sangue do que os outros americanos, notando que se os esquerdistas e moderados doassem tanto sangue quanto os conservadores doam, o abastecimento de sangue aumentaria em cerca de 50%.

Ou seja, o artigo é uma safadeza completa:

1- Tenta definir esquerdistas/liberais como "preocupados e dispostos a doar" porque acreditam em dar dinheiro pro governo, quando as pessoas também podem ser "preocupados e dispostas a doar" fazendo isso privadamente.

2- Tenta definir esquerdistas/liberais como os "preocupados e dipostos a doar maiores quantidades", mas quem doa mais são os conservadores.

3- Tenta dizer que conservadores doam mais, mas seria só entre os seus, no entanto os conservadores, de fato, doam mais também para causas não-religiosas do que os demais.

Ou seja, ironicamente, quem se enquadraria melhor no conceito que inventaram para esquerda, como indivíduos empáticos, seriam... os conservadores!


Por fim, a cereja do bolo. Os esquerdistas ficaram tão satisfeitos com sua pseudociência que resolveram contar vantagem — e acabam atirando no próprio pé:
"Aliás, essa constatação [de que os esquerdistas seriam mais inteligentes] corrobora uma das queixas persistentes entre os conservadores. Conservadores frequentemente se queixam de que os liberais controlam a mídia ou o show business ou a universidade ou algumas outras instituições sociais. A hipótese explica por que os conservadores estão corretos em suas queixas. Liberais realmente controlam os meios de comunicação, ou o show business, ou as universidades, entre outras instituições, porque, à parte de algumas áreas da vida (como negócios) em que as circunstâncias de competição possam existir, os liberais controlam todas as instituições. Eles controlam as instituições porque os liberais são, em média, mais inteligentes do que os conservadores e, portanto, eles são mais propensos a atingir o mais alto status em qualquer área (evolutivamente nova) da vida moderna."
Ah, então quer dizer que eles assumem que controlam todas as instituições, o que obviamente inclui o estado? Isso nos ajuda a estabelecer uma definição mais correta e entender a questão:

Liberais são os que DIZEM se preocupar mais com os outros a fim de arrecadar mais dinheiro para o Estado — mas eles próprios assumem que ocupam o Estado e suas instituições, o que significa que essa "preocupação com os outros" pode muito bem ser mera desculpa para reinvidicarem mais dinheiro a passar pelas mãos deles mesmos.

Enquanto Conservadores EFETIVAMENTE DOAM mais para os outros e reinvindicam a possibilidade de poderem continuar doando por conta própria.

Pelo jeito, se esquerdistas tiverem mesmo mais pontos de QI isso não tem feito deles pessoas mais preocupadas em ajudar os outros, e sim mais aptas a pensar em safadezas e enrolações retóricas pra dizerem que o são, forçarem outros, via impostos, a lhes dar dinheiro e posarem de bonzinhos. (Como já disse Rothbard, "É fácil ser notoriamente caridoso se outros são obrigados a pagar a conta"...)

E de brinde, aliás, uma boa demonstração de que inteligência não é a nossa salvação moral: inteligência é a capacidade de solucionar problemas conforme nossos interesses — e esses interesses continuam podendo ser bons ou maus.

Então da próxima vez que um esquerdista tentar uma cateirada de que é mais empático ou mais preocupado com os outros você já sabe: bote esse post na cara dele e não deixe-o enganar a platéia.



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